Eu sempre adorei livros de ficção historica desde que li Asteca, do Gary Jennings quando era criança. Uma historia numa civilização diferente, com uma perspectiva diferente de sociedade, e apesar de entender que a historia talvez não seja pra todos, ainda está entre meus livros favoritos de todos os tempos. Conforme o tempo foi passando eu fui lendo livros do genero que me marcaram, Criação e Juliano, ambos do Gore Vidal, um dos meus autores favoritos. Mas fazia tempo que eu não tropeçava num livro tão cativante quando The Years of Rice and Salt.
Ao contrario dos livros que eu mencionei primeiro, esse não é de ficção historica, é mais de fantasia historica, ou de historia alternativa. What if? o que aconteceria se tal coisa acontecesse ao invés da outra coisa? o que aconteceria se a peste negra matasse 99% da população européia ao invés de só 1/3 como foi na nossa timeline?
Eu sempre achei esse tipo de exercicio de imaginação muito interessante, porque todo fã de historia, todo mundo que gosta de estudar e ler já se perguntou algo assim, e apesar de essa já ser uma premissa interessante desde o começo, o ponto forte da historia não é a historia militar ou intriga politica que livros de historia alternativa costumam focar, coisas que não são um fator preponderante na historia, apesar de existirem aqui e ali. O ponto forte que me fez devorar esse livro como fazia tempo que não acontecia é ser uma historia sobre pessoas. Sobre pessoas tentando fazer o melhor que podem numa situação, e errando, e aprendendo, e lentamente evoluindo pra algo melhor, ou regredindo em casos, mas sempre sob uma perspectiva de entendimento, emocional, uma escrita que te faz se colocar na pele do personagem da vez, e acreditar no que ele acredita por um momento, e dar as mãos a ele, e chorar com ele, e ver o que ele vê.
Ao invés de guerra atrás de guerra atrás de guerra como é comum em generos historicos e pseudo historicos que são comuns faz um tempo voce tem varias historias de pessoas. A historia é separada por personagens, a vida de certos personagens, que são mais ou menos conectados de forma "espiritual". Eles seriam reencarnações de um certo grupo de pessoas que tem uma ligação afetiva e de destino. Apesar disso não é uma parada proselitista, ele não quer te converter a nada, muito pelo contrario, tem personagens de diversas religiões o tempo todo , e cada um vê no outro mundo algo parecido com o que esperaria da sua fé. Um Sufi ouve lá longe a voz do profeta Muhammad SAW, um seguidor do hinduismo vê os varios deuses decidindo o que fazer com ele e tal. E sempre de uma forma respeitosa, carinhosa e poética.
A historia começa com um soldado do exercito de tamerlão chega na europa, na parte hungara, e encontra só cidades vazias, cadaveres e tudo abandonado,resultado da peste negra. Então ele volta pra reportar o que viu, mas a vida é uma caixinha de surpresas.
Eu não posso frisar o suficiente o quanto a historia tem uma variedade de personagens e visões e pontos de vista diferentes. Desde uma garota indiana que tem raiva dentro de si, um clérigo sufi que tenta fazer o melhor de si através das dificuldades, um inventor afegão que se desiludiu com a alquimia, entre muitos outros. Cada vez que a historia muda e avança no tempo voce fica curioso pra saber aonde vai parar.
Longe de ficar tecendo loas a historia, eu quero finalizar dizendo que esse é um dos melhores livros que eu li em muitissimo tempo. Chorei como um ninja silencioso, ri e nunca deixei de querer saber o que iria acontecer com aqueles personagens e aonde as decisões deles iriam levar o mundo ao redor deles.
E finalmente: Espero que um dia uma editora corajosa resolva traduzir e publicar o livro no brasil, porque apesar de o mercado editorial não estar mais tão bom quanto antes, tenho certeza de que a galera ia comprar, por ser um genero que tá estourado tem anos. E antes que o cara perceba vai ser teletransportado para as ruas de samarkand e beijing e meca e caçando tigres na india, e recitando o nome de Deus em bukhara.
Nota 10